Ar comprimido na indústria alimentar: utilizações, riscos e requisitos de qualidade

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O ar comprimido é um dos serviços mais utilizados na indústria alimentar: é usado no enchimento, no sopro de embalagens, no transporte pneumático de ingredientes, na limpeza de equipamentos e no acionamento de válvulas e sistemas automáticos. O problema é que, em muitos desses processos, o ar entra em contacto direto ou indireto com o produto, pelo que qualquer resíduo de óleo, humidade ou partículas pode comprometer um lote inteiro e pôr em risco a segurança do consumidor.

Por isso, no setor alimentar e das bebidas, o ar comprimido não é apenas mais uma fonte de energia: é um ponto crítico de controlo que tem de ser vigiado com o mesmo rigor que a água ou os próprios ingredientes. Perceber quais são os contaminantes que o ameaçam e qual a qualidade exigida por cada processo é a base para produzir com segurança e o ponto de partida de qualquer solução de ar comprimido para a indústria alimentar.

Para que serve o ar comprimido na produção de alimentos

As aplicações são muitas e abrangem quase toda a cadeia de produção. Estas são as mais comuns:

Embalado e selado. Os sistemas pneumáticos que formam caixas, selam a vácuo e colocam etiquetas dependem de ar limpo para não ficarem entupidos nem contaminarem a embalagem.

Sopro de embalagens. O sopro das pré-formas de PET e a limpeza interior das garrafas antes do enchimento exigem um fluxo de ar sem partículas nem óleo, porque esse ar entra em contacto com a superfície que vai conter o alimento.

Transporte pneumático. O transporte de pós, grãos e ingredientes secos por meio de ar reduz a manipulação manual, mas coloca o ar em contacto direto com o produto.

Limpeza e secagem. Depois dos ciclos de limpeza com água, o ar comprimido seca as superfícies e remove os resíduos em zonas de difícil acesso, uma tarefa diária nas áreas de manuseamento.

máquinas de ar comprimido numa fábrica de produtos alimentares

Os contaminantes do ar comprimido que representam um risco para os alimentos

O ar que um compressor aspira é o ar ambiente e, ao comprimi-lo, as impurezas que contém ficam concentradas. Três delas são especialmente perigosas num ambiente alimentar. As partículas sólidas (poeira, pólen e óxido da própria rede) podem depositar-se sobre o produto. A humidade, que se condensa dentro das tubagens, favorece a proliferação de bactérias, bolores e leveduras. E o óleo, proveniente da lubrificação de alguns compressores ou do ambiente, pode alterar o sabor e contaminar quimicamente os alimentos. A isto junta-se o risco microbiológico: o ar húmido e temperado é o caldo de cultura ideal para os microrganismos.

Contacto direto e indireto: nem todo o ar precisa da mesma pureza

Um princípio fundamental do setor é que a qualidade exigida depende do facto de o ar entrar ou não em contacto com o produto. No contacto direto (o ar que sopra no interior de uma embalagem, transporta um ingrediente ou entra na câmara do produto), as exigências são máximas: praticamente zero óleo e humidade muito baixa. No contacto indireto (ar que apenas move cilindros ou aciona máquinas sem tocar no alimento), os requisitos são um pouco menores, embora nunca desprezíveis, porque uma fuga ou uma falha pode acabar por afetar a linha de produção. Distinguir estes dois casos é o que permite dimensionar bem o tratamento do ar, sem custos adicionais nem riscos.

Que qualidade do ar é exigida pela norma no setor alimentar?

A referência internacional é a norma ISO 8573-1, que classifica o ar comprimido de acordo com o seu teor de partículas, água e óleo. Na indústria alimentar, costuma-se exigir classes mais elevadas: para contacto direto com os alimentos, recomendam-se qualidades do tipo classe 1.2.1 ou 2.2.1, com um ponto de orvalho muito baixo para travar o crescimento bacteriano, enquanto que para o contacto indireto pode bastar uma classe um pouco menos rigorosa. Se quiseres perceber em pormenor como funcionam estas classes e o que significa cada número, explicamos tudo no nosso guia sobre a norma ISO 8573-1 e a qualidade do ar comprimido.

operador de máquina de ar comprimido numa fábrica de alimentos

Normas e certificações de segurança alimentar

Não existe uma lei específica que regule o ar comprimido no setor alimentar, mas existe um conjunto de normas e certificações que o exigem de forma indireta. Os sistemas de autocontrolo baseados no HACCP obrigam a identificar o ar comprimido como um possível risco e a controlá-lo. E as certificações de segurança alimentar mais procuradas pela grande distribuição, como a BRCGS e a IFS Food, exigem que se comprove que o ar em contacto com o produto cumpre um padrão de qualidade definido e é submetido a controlos periódicos. Na prática, isto torna o tratamento e a monitorização do ar um requisito para venderes a muitos clientes.

Como se obtém ar comprimido adequado para uso alimentar

Alcançar a pureza exigida não depende de um único equipamento, mas sim de uma cadeia de tratamento bem concebida. Os compressores sem óleo (classe 0) eliminam o risco de contaminação por lubrificante logo na origem; os secadores reduzem a humidade até ao ponto de orvalho necessário para impedir a proliferação microbiana; e os filtros coalescentes e de carvão ativado retêm aerossóis de óleo, partículas e odores residuais. A isto junta-se uma rede de distribuição feita de materiais que não liberem contaminantes, como tubagem de alumínio, e uma manutenção preventiva constante. Conceber bem esta combinação é o que garante ar seguro em cada ponto de consumo.

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